Rio de Janeiro – Jogos eletrônicos, filmes em 3D e
realidade aumentada, tecnologias que ainda são desconhecidas por parte dos
jovens brasileiros. Ao perceber que seus alunos, de Petrópolis, não entendiam o
que é um filme em 3D por nunca terem assistido a uma produção com essa
tecnologia, o professor de matemática Guilherme Erwin Hartung decidiu mostrar a
eles O Fantástico Mundo 3D.
O projeto deu tão certo que Hartung
recebeu, no ano passado, o Prêmio Professores do Brasil, concedido pelo
Ministério da Educação (MEC). Durante as atividades oferecidas fora do horário
das aulas, sem valer nota, 15 estudantes montaram um site com imagens em 3D
produzidas por eles mesmos.
Antes tiveram oficinas de biologia,
para saber como funciona o olho humano, de física, sobre polarização da luz, e,
claro, de matemática, para entender e calcular a geometria envolvida na
produção das imagens com a sensação de profundidade. Também foram feitas
visitas a institutos de pesquisa e a um laboratório de computação, além de
participarem de uma videoconferência com especialista em 3D de Hollywood. Tudo
graças ao empenho do professor, que também é orientador tecnológico no Colégio
Estadual Embaixador José Bonifácio, de ensino médio.
“Os alunos gostaram, alguns disseram
que a questão da física mudou, tem muito aluno que diz que odeia física, mas,
quando vê a física aplicada, uma coisa interessante, palpável, passa a ver a
física com outros olhos. A professora de biologia também comentou que os alunos
realmente aprenderam o sistema de visão. Em matemática, os 15 que frequentaram
o projeto todo realmente aprenderam as razões trigonométricas”, contou Hartung.
Para ele, o incentivo de um professor
é suficiente para mudar o destino de um aluno. “Com certeza, [entre] os alunos
que participaram do [projeto] 3D, muitos falam em fazer faculdade na área de TI
[tecnologia da informação], já estão correndo atrás, escolheram faculdade, Enem
[Exame Nacional do Ensino Médio], vestibular. Fiquei feliz porque, não sei se o
projeto contribuiu para isso, mas com certeza abriu um pouco a cabeça deles
nesse sentido.”
Outro projeto desenvolvido por ele no
colégio de Petrópolis envolve uma atração irresistível para praticamente todo
adolescente: os jogos eletrônicos. O professor observou o quanto é diferente o
comportamento do aluno enquanto joga e quando está na escola.
“Quando joga, ele ‘morre’ na mesma
fase 100 vezes e continua tentando. Quando ensino matemática e o aluno erra o
exercício, fica frustrado e não que mais fazer. Outra coisa é a concentração,
quando o adolescente joga está muito focado, o que não acontece na aula. Tem
também o desafio, a próxima fase precisa ser mais difícil do que a anterior. Na
aula, se você dá um exemplo fácil para entender a mecânica primeiro e dá
exemplos mais difíceis, dizem ‘está complicando a nossa vida’.”
A ideia do professor, que tem
formação técnica em TI, foi estimular os alunos a produzirem seus próprios
jogos. “A única regra que tinha era: esse jogo tem que você vai criar tem que
ensinar alguma coisa para alguém”. O professor usou softwares livres e fáceis
de trabalhar, em que é possível montar a estrutura de um jogo. Nesse caso,
também foram dadas oficinas sobre matemática aplicada, indústria de games,
programação, desenho e linguagem visual de um jogo.
Com isso, no primeiro ano do projeto
foram produzido cerca de 30 joguinhos. “Percebi a melhora de alguns alunos em
matemática depois do projeto. O interessante é que muitos dos jogos foram
aproveitados pelos professores em sala de aula e alguns foram demandados. Isso
é bem inovador, o aluno participar da prática do professor, e também a visão
inovadora de usar jogos em sala de aula”.
A motivação para Hartung vem do
próprio exercício da profissão. “Com o cargo de orientador tecnológico, eu
tinha 12 horas e um laboratório de informática, não podia deixar os alunos
jogando e entrando no Facebook, então comecei a inventar coisas. Eu tinha que
ajudar de alguma forma a melhorar esses índices horrorosos que o Brasil amarga
nessas avaliações externas.”
Segundo ele, o seu maior incentivo é
conseguir despertar no aluno o prazer de aprender. “Eu costumo dizer que eu
jogo iscas – tecnologia 3D, jogos, realidade aumentada – para trazer o aluno,
para ele pelo menos tentar se envolver com aquilo, com os conteúdos que estão
ali por trás. A partir do momento em que ele começa a experimentar, começa a
ter essa sensação boa de ‘agora eu sei um pouco mais do que eu sabia antes’, aí
você vê uma transformação interessante.”
O professor acredita que a educação
no Brasil tem melhorado, mas de uma forma muito lenta. “O ensino médio passou a
ser obrigatório, a falta de professor que havia cinco anos atrás já não
acontece tanto, as escolas estão com uma estrutura melhor. Mas a motivação dos
alunos eu acho que não é grande coisa, pelo contrário, eu acho até que na minha
época a gente não era tão desmotivado”.
O trabalho do professor Guilherme
Erwin Hartung com os alunos do Colégio Estadual Embaixador José Bonifácio podem
ser conferidos nos sites http://www.guilhermeeh.blogspot.com.br/, http://petropolis3d.webnode.com.br/ ehttp://www.fractalmultimidia.blogspot.com.br/,
que oferece os jogos desenvolvidos para download.
* Edição: Juliana Andrade
** Publicado originalmente no site Agência Brasil.
http://envolverde.com.br/educacao/com-criatividade-e-tecnologia-professor-desperta-interesse-de-alunos-pela-fisica-e-matematica/
(acesso em: 25/10/2012).
Nenhum comentário:
Postar um comentário